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Univasf: uma universidade saqueada. Conheça que além de Fernando Bezerra, outros nomes estão envolvidos neste episódio triste em Petrolina

Surge aí a possibilidade de outros patronos, interferências de outros atores políticos, como a provável influência do Cel. Heitor Leite, que teria laços com Oswaldo de Jesus Ferreira, presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), gestora dos hospitais universitários. Há ainda o detalhe que o Cel. Heitor Leite, que já foi secretário de educação do município de Petrolina, estaria organizando na região o novo partido do presidente Bolsonaro, tendo como apoiadores, justamente, alguns professores do Colegiado de Medicina do campus Petrolina.

No Semiárido Nordestino, mais precisamente no Vale do São Francisco, região pujante conhecida pela sua fruticultura e ao mesmo tempo desafiadora devido ao baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de muitos municípios, localiza-se a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf).A instituição tem sede em Petrolina (PE) e está presente em mais seis campi (Juazeiro-BA, Paulo Afonso-BA,São Raimundo Nonato-PI, Salgueiro-PE, Centro Ciências Agrárias/Petrolina-PE e Senhor do Bonfim-BA).

Além destes campi, há outros centros de ensino e pesquisa, entre os quais figura o mais importante hospital da região, o Hospital Universitário (HU), juntamente com a Policlínica. O HU é responsável pelos atendimentos de urgência e emergência na região. Trata-se, portanto, de uma grande estrutura federal cuja prestação de
serviços exige a movimentação de milhões em recursos públicos, apresentando grande importância econômica, tecnológica, educacional e social.

Não surpreende que, com frequência, a Universidade tenha que ser defendida da cobiça daqueles que estão sempre à espreita para fincar-lhe seus dentes, sobretudo em um contexto nacional de instabilidade política que deixa as instituições mais vulneráveis aos oportunistas. Ao longo da história da instituição, quase sempre as
tentativas de ataque dessa natureza foram impedidas de ter êxito. No contexto atual,contudo, os ataques parecem mais difíceis de conter.

Em 2019, a Univasf viveu seu rotineiro processo de escolha de reitor. Houve a consulta pública à comunidade acadêmica, tendo por vencedor (em primeiro turno e atingindo maioria nos três segmentos da comunidade: discentes, docentes e profissionais técnico-administrativos) a chapa do professor Télio Leite e da professora Lucia Marisy, candidatos a reitor e vice, respectivamente. Seguindo o rito legal (Lei 5540/1968), procedeu-se a eleição no Conselho Universitário (Conuni), onde os candidatos se inscreveram e procedido o pleito obteve-se como resultado Telio e Lucia em primeiro lugar, Ricardo Santana e Adriana Moreno em segundo lugar, Michelle Vieira e Marcelo Ribeiro em terceiro lugar, formando então a chamada lista tríplice a ser enviada para o MEC, de modo que o presidente/ministro da educação pudessem fazer a escolha dentre os nomes apresentados.

Inconformados com a situação de derrota (na consulta à comunidade e entre os conselheiros do Conuni), a chapa composta por Jorge Cavalcanti e Ferdinando Carvalho recorreu ao MEC e à justiça, alegando irregularidades no processo (ocandidato Ferdinando capitaneia esses processos, seguido por alguns outros
inconformados com derreta eleitoral). Contudo, o próprio MEC emitiu parecer técnico afirmando que todo o processo transcorreu dentro da legalidade (NOTA TÉCNICA Nº 18-2020-CGRH-DIFES-SESU-SESU de 06-03-2020).

Apostando no cenário político nacional instável e maliciando outras situações onde universidades sofreram intervenções, Ferdinando, em articulação com o Deputado Estadual Pastor Eurico (Patriota-PE), apoiador do governo Bolsonaro e ligado à ala ideológica do ministro da educação, Abraham Weintraub, recorreu à justiça via apreciação de um desembargador que, de maneira monocrática, suspendeu o envio da lista tríplice ao MEC, travando o processo administrativo que estava pra ter seu desfecho normal.

Decorrido o prazo de mandato do prof. Julianeli, o processo não havia sido concluído e o MEC nomeou o reitor pro-tempore, prof. Paulo Cesar Fagundes, que é membro do Colegiado de Medicina do campus Petrolina, e um apoiador da inconformada chapa perdedora. A escolha desse nome foi atravessada por um escangalho, típico de bestas feras que babam em momentos antes de estraçalhar suas vítimas. Antes da referida nomeação, contudo, o deputado Pastor Eurico, tão desconhecedor da região quanto da Univasf (inclusive escrevendo incorretamente a sigla dessa Universidade, “UFVSF”, em documentos oficialmente tramitados ao MEC),
demandou ao ministro Weintraub que Ferdinando, o derrotado, fosse nomeado pro tempore (OF.GAB.DEP.PrE.Nº 066/2020).

Após evidenciada a impossibilidade da nomeação solicitada, uma vez que o cidadão politicamente indicado foi candidato derrotado e parte interessada na disputa judicial, o Deputado indicou o professor João Carlos Sedraz Silva (OF.GAB.DEP.PrE.Nº 067/2020), outro apoiador da mesma chapa perdedora, que declinou mesmo após seu nome ter sido formalmente transmitido ao MEC pelo seu patrono. Insistentemente, o deputado Eurico apontou para um terceiro nome a ser agraciado com a nomeação: um professor do Instituto Federal da Bahia, do campus de Jequié (OF.GAB.DEP.PrE.Nº 068/2020), cuja nomeação foi inviabilizada por questões legais decorrentes da diferença entre as carreiras docentes nas IFs e nas Universidades Federais.

Dessa forma, apenas por fim surgiu, na disputa (“extra eleitoral”) pelo cargo, a figura do atual pro-tempore, Paulo Fagundes, que vem de um Colegiado onde alguns professores apoiaram à chapa perdedora em redes sociais e por meio do voto de seu representante no Conuni. Nesse caso, não se tem conhecimento de documento oriundo do gabinete do Deputado Pr. Eurico solicitando tal nomeação.

Surge aí a possibilidade de outros patronos, interferências de outros atores políticos, como a provável influência do Cel. Heitor Leite, que teria laços com Oswaldo de Jesus Ferreira, presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), gestora dos hospitais universitários. Há ainda o detalhe que o Cel. Heitor Leite, que já foi secretário de educação do município de Petrolina, estaria organizando na região o novo partido do presidente Bolsonaro, tendo como apoiadores, justamente, alguns professores do Colegiado de
Medicina do campus Petrolina.

Agora, nomeado o reitor temporário, coordenadores de campanha do grupo derrotado e outros tantos de seus apoiadores começam a ocupar os espaços administrativos na Univasf, em cargos de direção explicitamente ambicionados. O reitor interventor, inclusive, tem informado a pessoas próximas que seu interesse
maior está no Hospital Universitário, havendo pouca atenção de sua parte para o restante das diversas e complexas atividades desenvolvidas pelas centenas de profissionais da instituição. Emergem, assim, contradições no mínimo curiosas, pois algumas dessas pessoas disseram abertamente durante a campanha e em entrevista a famosa rádio local, que sentiam vergonha do papel da Univasf na região, que julgavam irrelevante.

Dessa maneira, é mais que visível o ataque rasteiro que está sofrendo esse importante patrimônio público, impedido de exercer a costumeira escolha democrática de seus representantes e de vê-los compondo a reitoria e executando o programa de gestão vitorioso. E, quando a dignidade de uma universidade é  saqueada, além de lamentar e repudiar o ato, alguns questionamentos precisam ser feitos, principalmente na Univasf, palco desse horror:
– Tendo, o Deputado Pastor Eurico, sua influência política concentrada na Região Metropolitana do Recife, por quais atores e meios foi realizada a articulação política local?

Quem é, exatamente, esse Deputado, além patrono de tantos nomes indicados à reitoria à revelia de sua comunidade e de seu Conselho máximo? Existem outras forças, ora ocultas, atuando?

O deputado federal Gonzaga Patriota, cuja base política regional se aproxima mais da área de atuação da Univasf, teve participação de fundo na negociata de esquartejamento da autonomia da Universidade?

– O que o Deputado Pr Eurico irá querer em troca do esforço político mobilizado na patronagem realizada? Ou será que agiu “por amor” à Universidade cuja sigla desconhece? Ou, ainda, teria afetos não revelados pelo indicado de sua preferência, o prof. Ferdinando?

 Afinal, nesse turbulento processo de trânsitos de influência, teria sido mesmo o Cel. Heitor Leite quem emplacou a indicação do nome do prof. Paulo Cesar Fagundes, efetivamente nomeado para ser o Reitor pro-tempore? Qual o custo disso, para os agraciados e, sobretudo, para a Universidade e sua comunidade? E quais serão os desdobramentos entre as forças políticas locais?

 Pessoas da chapa derrotada teriam vínculos familiares com esses políticos que se mobilizaram na batalha junto ao MEC?  Quem é mesmo Paulo Fagundes, o reitor nomeado? Quem é esse docente? Qual o seu perfil, os serviços prestados e qual a conduta dele na área de saúde em que atua? Um conceituado e competente professor agraciado pelos méritos acumulados ao longo da carreira? – Como a influente família Coelho, sobretudo o Senador Fernando Bezerra Coelho, se posicionou em relação a esse fatiamento da Universidade?
Participou de algo?

Reconhecidos pela participação nos processos de  implantação de muitos projetos federais em nossa região, esses atores foram agora alijados do processo? Em caso positivo, como se dá a relação com o polêmico ministro da educação? Pedidos reiterados ao ministro Abraham Weintraub, feitos pelo Deputado Pr.Eurico, autor do processo no MEC juntamente aos derrotados, não configuraria o tão repudiado tráfico de influência que se tenta banir de uma gestão pública comprometida com a lisura e com a democracia?

Um grupo perdedor num processo eleitoral poderia ocupar o poder, adentrando nos cargos de direção disponíveis, enquanto esse mesmo processo está inconcluso, tramitando na justiça?  Um Hospital Universitário, que movimenta orçamento público de milhões de reais e que tem enorme impacto social na região, deveria ser manejado  enquanto objeto de interesse político? Há interesses econômicos via a “indústria da saúde”? O Cel. Hector Leite já teve interesse na gestão do Hospital? Se sim, mantém esse interesse?  E a Univasf como todo, passaria agora a ser balcão político para atender os interesses, os favores e as trocas ensejadas pelos ardis articulistas?

A Univasf e toda a sua dignidade está sendo esgarçada. Quanto tempo levará a Universidade para transcender o saqueamento vivido? Quem se posicionará contra e a favor? A história, certamente, reivindicará responsabilidades. Que venha a público quando a dignidade de uma Universidade Federal é saqueada os responsáveis por esse triste episódio.

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