Política
Arquitetura hostil: jardineiras e vasos ocupam calçadas, criando barreiras para pessoas em situação de rua em Petrolina
Expansão da prática prejudica a mobilidade de moradores, idosos, pessoas com deficiência e responsáveis por carrinhos de bebê. MPF e Defensoria acionam a Justiça para exigir da prefeitura um plano de acolhimento

Nas ruas de Petrolina, o espaço destinado aos pedestres tem se tornado cada vez mais reduzido. O uso de vasos, jardineiras e modificações em estruturas de prédios transformaram-se em estratégias para evitar que pessoas em situação de rua permaneçam em determinados locais.
Bancos de praça atravessados por ferros, calçadas e vãos cobertos por espetos: arquitetura hostil afasta os mais pobres dos centros urbanos e aprofunda desigualdade, apontam especialistas.Ao circular por uma cidade populosa, é provável que você já tenha se deparado com bancos com divisórias e calçadas com grades ou até mesmo espinhos. É a chamada arquitetura hostil, que visa afastar pessoas em situação de vulnerabilidade – principalmente moradores de rua – de locais públicos.
Recife, Jaboatão dos Guararapes, Petrolina e Caruaru, são exemplos de grandes cidades que têm casos de arquitetura hostil aplicado nos seus planejamentos urbanos. No Brasil, a Lei Padre Júlio Lancellotti, de 2022, proíbe técnicas construtivas hostis em espaços de uso público. Apesar disso, barreiras de exclusão social ainda são comuns em centros urbanos.
Um planejamento urbano adequado pressupõe a organização eficaz e sustentável, o uso inteligente do território e a garantia do bem-estar da população; se o espaço público exclui e afasta determinados indivíduos, isso é sinal de planejamento falho, pontuam especialistas ouvidos pela redação do Blog Alingua.

A arquitetura hostil se mostra em espaços que repelem a presença humana e não são feitos para permanência, explica o arquiteto e urbanista Leonhard Bravo. Ela pode ser um mecanismo de gentrificação, provocando a expulsão de determinados indivíduos da paisagem urbana e abrindo o caminho para a especulação imobiliária, atraindo moradores de maior poder aquisitivo e expulsando os que ali viviam originalmente.
A arquitetura hostil pode ser, também, uma ferramenta de controle social, ao inibir a presença e permanência de certos grupos em determinados espaços, como constatou um estudo da Universidade de São Paulo (USP).
O que acontece quando certos grupos são excluídos
Segundo Bravo, que também pesquisa segregação espacial pela UFSC, intervenções “hostis” na paisagem urbana geralmente são feitas sob o pretexto de torná-la mais “bonita” e uniforme. Sob essa lógica, exemplifica, moradores de rua deitados sob a fachada de uma loja de luxo são inconvenientes e devem, portanto, ter sua permanência ali desencorajada
De acordo com o procurador do MPF, Júlio José Araújo Junior, muitos dos objetos posicionados pelas cidades caracterizam-se como exemplos de arquitetura hostil. Tais intervenções urbanas são deliberadamente projetadas para afastar e dificultar a permanência das pessoas, especialmente as mais vulneráveis.
Cauby Fernandes




